Você entra em uma loja de tênis e alguém pergunta:

“Qual é a sua pisada?”

Pronada?

Neutra?

Supinada?

Para quem está começando a correr, parece que existe uma resposta certa que vai determinar exatamente qual tênis comprar.

Na prática, não é tão simples.

Esses termos ajudam a descrever características da postura e do movimento do pé, mas não funcionam como três caixas perfeitas capazes de dizer sozinhas qual tênis você deve usar.

No uso popular, expressões como “pisada pronada” e “pisada supinada” muitas vezes misturam postura estática do pé e movimento durante a corrida. Cientificamente, essas coisas não são exatamente a mesma medida.

Em poucas palavras

Resposta rápida

Pronação e supinação são combinações de movimentos do pé em diferentes planos. De forma simplificada, representam movimentos em direções opostas que participam de diferentes momentos do apoio.

Pisada neutra é um termo prático usado para descrever um padrão intermediário dentro de determinadas classificações.

Supinação envolve movimento na direção oposta à pronação e também faz parte da mecânica normal do pé em determinados momentos.

O problema surge quando essas classificações viram uma receita:

Pronador compra tênis X.
Neutro compra Y.
Supinador compra Z.

A melhor evidência disponível não sustenta uma regra universal tão simples.

Pronação não é automaticamente um problema

A palavra “pronação” ganhou uma fama ruim.

É comum encontrar frases como:

“Seu pé prona, então sua pisada está errada.”

Isso é uma simplificação.

O pé realiza movimentos complexos durante a caminhada e a corrida, e algum grau de pronação faz parte desse processo.

O que pode variar bastante é quanto, quando e como esse movimento acontece, além da resposta individual de cada corredor.

Portanto:

ter pronação não significa automaticamente ter um problema que precisa ser corrigido.

O que chamamos de pisada pronada?

Em linguagem comum, “pisada pronada” costuma indicar uma maior tendência de movimento do pé para dentro durante o apoio.

Mas existe uma diferença importante entre:

  • observar o formato do pé parado;
  • classificar a postura estática do pé;
  • analisar como o pé realmente se move correndo.

Essas coisas podem se relacionar, mas não são equivalentes.

Um estudo biomecânico que comparou o Foot Posture Index, usado para classificar a postura estática, com medidas durante caminhada e corrida concluiu que essas avaliações não devem ser usadas como se medissem exatamente a mesma coisa.

Por isso, olhar seu pé parado ou fazer um teste simples em casa não permite concluir tudo sobre como você corre.

O que é chamada de pisada neutra?

“Neutra” é uma classificação prática usada para indicar um padrão intermediário dentro de determinados métodos de avaliação.

Isso não significa:

“pé perfeito.”

Nem significa que uma pessoa classificada como neutra nunca terá dores ou lesões.

A biomecânica da corrida envolve muito mais do que uma categoria de pisada.

Carga e progressão de treinamento, histórico de lesões, recuperação, características individuais e vários outros fatores podem participar do desenvolvimento de problemas.

Revisões sistemáticas mostram que prever lesões apenas por variáveis biomecânicas é muito mais difícil do que antigas teorias sugeriam.

E a pisada supinada?

Pronação e supinação são combinações de movimentos do pé em diferentes planos. De forma simplificada, representam movimentos em direções opostas que participam de diferentes momentos do apoio.

Quando alguém recebe a classificação popular de “pisada supinada”, normalmente está sendo descrita uma postura ou tendência dentro desse espectro.

Mas novamente:

isso não é um diagnóstico médico por si só.

E também não significa automaticamente:

“Você precisa do tênis mais macio possível.”

Essa receita simplificada não tem base suficiente para ser aplicada a todas as pessoas.

O desgaste da sola revela minha pisada?

O desgaste pode dar pistas sobre onde houve mais atrito, mas não deve ser usado sozinho para diagnosticar pronação ou supinação.

Esse padrão pode ser influenciado por vários fatores:

  • forma de contato com o solo;
  • terreno;
  • maneira de caminhar e correr;
  • rotação do pé;
  • desenho do solado;
  • quilômetros acumulados.

Usar apenas a sola gasta para concluir:

“Sou pronador.”

ou:

“Sou supinador.”

é simplificar demais uma mecânica complexa.

O “teste do pé molhado” funciona?

Ele mostra principalmente a impressão plantar e o formato do arco sob carga, podendo fornecer uma noção grosseira da altura e do formato do arco.

Mas isso não é o mesmo que analisar ou diagnosticar a dinâmica do pé durante a corrida.

Estudos comparando postura estática e movimento dinâmico mostram que essas medidas não são intercambiáveis.

Portanto, o teste pode ser uma curiosidade ou uma observação inicial, mas não determina sozinho qual tênis uma pessoa deve usar.

Quem prona precisa obrigatoriamente de tênis de estabilidade?

Não.

Um estudo prospectivo acompanhou 927 corredores iniciantes durante um ano usando tênis neutros.

Importante: nesse estudo, os pés foram classificados pelo Foot Posture Index, uma medida de postura estática, e não por uma análise dinâmica completa da pronação durante a corrida.

Os pesquisadores não encontraram maior risco associado à categoria de pronação moderada em comparação com a categoria neutra.

Havia, porém, apenas 18 pés classificados como altamente pronados. Portanto, o estudo não permite concluir com segurança sobre extremos de pronação.

Os autores concluíram que os resultados contrariavam a crença de que pronação moderada, por si só, significaria maior risco para iniciantes correndo com tênis neutros.

Isso é uma informação importante.

Mas também não significa:

“Tênis de estabilidade não servem para nada.”

Então recursos de estabilidade ou controle de movimento podem ajudar?

Em alguns casos, podem.

Uma análise secundária de um ensaio randomizado acompanhou 372 corredores recreativos usando tênis neutros ou um modelo específico com controle de movimento.

Nesse estudo específico, os tênis com controle de movimento foram associados a menor risco das lesões que os pesquisadores haviam classificado previamente como relacionadas à pronação.

Isso não demonstrou que todas as pessoas pronadoras precisam desse tipo de tênis, nem que ele previna todas as categorias de lesão. O resultado também não pode ser generalizado automaticamente para todo tênis comercializado como “estabilidade”.

Transparência sobre a pesquisa: o ensaio original dessa linha de pesquisa teve participação e financiamento ligados à Decathlon, além de pesquisadores empregados pela empresa. Isso não invalida o estudo, mas é relevante ao interpretar e generalizar os resultados.

A interpretação responsável é:

alguns corredores e algumas situações podem se beneficiar de recursos de estabilidade.

Não:

todo pronador precisa deles.

Escolher tênis pela pisada reduz lesões?

A melhor síntese disponível não sustenta essa estratégia como regra geral.

Uma revisão Cochrane analisou ensaios sobre diferentes tipos de tênis e prevenção de lesões.

Nos estudos que selecionavam o calçado a partir da postura estática do pé, não houve evidência de redução relevante das lesões em comparação com fornecer calçados sem essa prescrição.

Há uma limitação importante: os três ensaios dessa comparação foram realizados em populações militares, portanto não devemos assumir que todos os resultados se transferem perfeitamente para corredores recreativos.

Mesmo assim, a conclusão é útil:

classificar sua pisada não funciona como uma fórmula universal de prevenção.

Então devo ignorar completamente minha pisada?

Também não.

O erro seria sair de um extremo para outro.

Informações sobre postura e movimento podem ser úteis dentro de uma avaliação mais ampla, especialmente quando existe:

  • dor recorrente;
  • histórico de lesões;
  • dificuldade persistente com determinados tênis;
  • necessidades clínicas específicas.

Nesse contexto, observar como você corre pode fazer parte de uma avaliação individual.

O que não devemos fazer é transformar uma única característica em resposta para tudo.

Qual tênis escolher então?

Para quem está começando e não possui uma necessidade clínica específica, comece por:

  1. ajuste correto;
  2. conforto;
  3. sensação de estabilidade;
  4. terreno em que vai correr;
  5. tipo de treino;
  6. orçamento.

Depois disso, características de estabilidade e geometria podem ajudar a refinar a escolha.

Leia também:

Quando procurar avaliação profissional?

Procure orientação qualificada se houver:

  • dor persistente;
  • lesão recorrente;
  • condição ortopédica conhecida;
  • grande dificuldade em encontrar calçado confortável;
  • sintomas que aparecem repetidamente durante a corrida.

Este conteúdo é educativo.

Ele não serve para diagnosticar sua pisada nem tratar uma lesão.

A conclusão mais importante

Você não precisa ter medo da palavra “pronação”.

E também não precisa descobrir uma etiqueta antes de comprar seu primeiro tênis.

A classificação:

pronada, neutra ou supinada

pode ser uma informação.

Ela não é, sozinha, uma receita de compra nem um diagnóstico.

Fontes e referências